«E por vezes as noites duram meses. E por vezes os meses oceanos. E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos. E por vezes fingimos que lembramos.»

Memórias. Acima de tudo, este espectáculo é sobre memórias. E de sonhos que se esfumaram no tempo; de ideais que tinham tanta força, mas que agora parecem apenas ter significado como história que se repete em tertúlias saudosistas. O falar de um passado recente, das vitórias da esperança, que agora se assumem como meias-vitórias do comodismo. Tanto foi reivindicado para, agora, nos bastar tão pouco. Perdemos a inocência em terras distantes, e vendemo-la aqui tão perto.


Este espectáculo é sobre a Noémia e a Mariana, amigas reencontradas numa qualquer planície alentejana. Sobre as ideologias que as uniam - e que agora criam um fosso entre elas. É sobre o Octávio e o seu pequeno mundo. Sobre soldadinhos de brincar, que por mais que se guardem nunca deixarão de lá estar. É sobre uma irmã que já foi noiva, e uma noiva que nunca o deixará de ser. Sobre o fosso que se cava entre os que partem (para sempre) e os que ficam. É sobre um jovem soldado que já não o é. Nem soldado e muito menos jovem. Apenas memória. E é sobretudo sobre um jogo. Sobre fotografias e palavras, imagens e lembranças. É sobre uma terra árida onde se enterram recordações, na esperança de as perder. Mas é impossível. Este espectáculo é sobre 1960, o Ultramar, o amor e a dor, o comodismo e a ilusão. Este espectáculo é sobre o nosso país e uma identidade colectiva. Seja o que isso for...


 

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