Hoje voltei a ti, minha cidade imaginada. Senti-te novamente a pulsar dentro de mim, como se a utopia tivesse recuperado o fôlego há muito perdido.
Tenho de admitir que a força desta cidade desejada por um anjo confuso estava a enfraquecer a cada dia. A jovialidade com que imaginava que os sonhos são possíveis, que a força de um poderá mutar-se na força de todos - essa inocência de espírito estava a diluir-se nas multidões pendulares e nos dias cinzentos e sempre iguais. Diziam-me que afinal não deviamos querer mudar o mundo, mas sim adaptarmo-nos a ele. Se primeiro estranhei... depois entranhei e começava a aceitar. Pouco a pouco, essa cidade de cores vivas e vibrantes, esse tempo de mudança e construção, desvaneciam-se. Agora via uma cidade sempre igual, hoje como ontem... hoje como amanhã. Fotocópias de fraca qualidade, repetidas vezes sem conta - as letras desaparecendo, cada vez mais perto de apenas folhas brancas. Era assim que me começava a sentir: uma folha branca, mas já amarrotada de um repetido uso.
Mas hoje, a cidade imaginada regressou. Não por festejos bacocos e vazios de sentido. Não por bandeiras ao vento, em que os símbolos estão eles também gastos - fotocopiados. Não por palavras de ordem presas no tempo, e desadequadas a uma cidade de olhos no futuro. Hoje a cidade imaginada renasceu porque me lembrou de tudo o que foi luta, acção - de tudo o que queríamos, mas, principalmente, de tudo o que ainda iremos desejar. E cada uma das trinta-e-duas ruas da memória passou de manifesto a projecto. Afinal, a cidade sempre manteve as suas cores - apenas estavam empoeiradas. Saí para a praça, e senti que aquele sentimento que julgava perdido ainda lá estava... à minha espera. De cada porta, de cada janela entreaberta - de cada pessoa - um sonho saía. Eram já muitos, enchendo a cidade. Eram estes os sonhos de que os livros de História falavam. Alguns cansados, é certo, mas ainda com força suficiente para se unirem a outros sonhos - para fazerem a cidade imaginada. Deixei também que os meus desejos se libertassem no ar, ganhassem novamente vida. E a cidade acordou.
Hoje, aqui e agora, esta cidade desperta (nem que seja por um dia) disse-me que contava comigo. E eu, de asas vermelhas ao vento, respondi-lhe: «sabes, acho que ainda vamos a tempo!»
(retirado do blog a poeira dos dias)
| memorias
Lembras-te de mim? Daqueles dias que passávamos juntos - imaginando mudar o mundo de uma só penada. Lembras-te de mim? Eu era aquele rapaz que ficava sempre no fundo da sala, a mochila cheia daqueles jornais revolucionários, e com os panfletos já prontos a distribuir.
Lembras-te de nós? Lembras-te de como me disseste que enfrentarias os teus pais, que não irias seguir o curso qu te estava destinado, e que sim, que me acompanharias na luta política? Talvez não te lembres já, mas desconfiei da tua adesão à causa, dos teus motivos. Tudo bem que me agradava ter alguém como tu interessada em alguém como eu. Tudo bem que nem todos teríamos o mesmo empenho, e que quantos mais fossemos mais nos levariam a sério. Tudo bem que também eu nem sempre percebia as palavras de ordem que berrava com a intensidade que só se tem com dezoito anos. Lembras-te do que me disseste no dia em que finalmente a liberdade chegou? No dia em que descobrimos que nada realmente nos unia só um ao outro - a não ser um vago sentido de pertença a um qualquer grupo coloridamente conotado (vermelhos, naquela altura éramos todos vermelhos).
Lembras-te?! Tens a certeza? Então porque te comportas agora, trinta-e-tal anos passados, como se tivéssemos sido meros companheiros de escola? Porque fazes um sorriso amarelo quando falo daqueles tempos e da tua saia ao xadrez, moda importada dos ventos de 68? Porque te escondes debaixo de um ar de quem não reconhece a sua própria história. Espera - não reconhece ou não aceita?
Três décadas passaram, e a liberdade que quisémos não passa agora de um chorrilho de frases feitas - de uma enciclopédia do mundo fantástico que ninguém acredita (realmente) ter acontecido. É certo que naquela data tão coloridamente marcada no calendário (se bem que, agora, o vermelho esbateu-se e outras tonalidades lhe tomaram o lugar) ainda todos pomos a flôr na lapela e sacudimos o pó às palavras de ordem. É certo que ainda sabemos apontar as responsabilidades aos nossos filhos com um:«havias de ver como se piava mais fino na minha juventude», «tudo o que tens foi conquistado com o suor, sangue e lágrimas de muitos». É certo que guardas como um prémio que ninguém valida a tua sindicância passada. Mas, no dia-a-dia, nas horas rotineiras e pendulares, cristalizaste outros valores agora bem mais queridos - o conforto de um bom sofá e a crítica política mas pouco implicada, acompanhada da respectiva ausência nas urnas. A liberdade foi conquistada, mas fizeste questão em trocá-la por um carro e uma casa a prestações.
Desculpa, acho que afinal eu é que já não me lembro de ti...
(adaptado do blog a poeira dos dias)
| memorias
Despedi-me de ti naquela manhã de inverno. Ou de verão, mas que para mim foi e será sempre de inverno. Vi-te de arma ao ombro, e de boina mal amanhada na cabeça. Vi-te como te vejo agora: sorriso largo, ombros largos. Aqueles ombros para os quais ansiava sempre voltar nos dias de tristeza. E que sonhava apertar nos tempos felizes que passámos. Já passaram quarenta anos e ainda me lembro como se fosse ontem. Sim, porque hoje quero esquecer.
Escolhi o melhor vestido, aquele que apenas usava para domingos de missa. Escolhi sapatos a condizer. E escolhi a melhor cara. A cara que te servia a ti, que te encorajava nessa viagem para lugares distantes. Escolhi essa cara que me fazia sofrer, essa cara que mascarava o grito que me apetecia soltar. Mas não gritei. Até esta hora em que o baú se abre, eu não gritei. Dizer, hoje, «não vás» já não serve de nada. O grito não passa agora de mero sussurro, de mera memória junta a tantas outras que nos ligam um ao outro. O grito que deveria ter soltado naquela altura é agora despropositado, porque tardio.
Estava ali, naquele cais de embarque. E tu do outro lado da grade. Eu vestida de cerimónia - vestida de celebração... E tu de farda, de calça vincada e de casaco marcado à cintura. E uma grade a separar-nos - depois um mar imenso entre nós. Que nos separou para sempre.
(retirado do blog
a poeira dos dias)| memorias
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
[...]
Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas.
Fotos do fogo, Sérgio Godinho
| memorias
Dramaturgia e Encenação: Ricardo Mendes
A partir de "O Sentido da Epopeia" de Mário de Carvalho
e textos de Al Berto, Carlos Alberto Machado, David Mourão Ferreira,
João Gil e Manuel Alegre
Elenco: Letícia Pinheiro, Luis Mendes, Mónica Lourenço,
Pedro Candeias, Rita Martins, Sandra Santos, Vanda Candeias
Assistência de Encenação: Isabel Torres
Espaço Cénico: Ricardo Mendes
Execução Cenográfica: Rui Ferreira
Desenho de Luz: Ricardo Mendes
Guarda-Roupa e Adereços: TPN
Materiais de Divulgação: Luc@s
Operação Técnica: Rui Ferreira e Vitor Machacaz
Produção: Ricardo Mendes
agradecimentos: Daniela Oliveira e Margarida Diogo
| equipa
Passaram pelo meu nome e eu era um número - menos que a folha seca de um herbário. Colheram-no com mãos de zelo e gelo; escreveram-no, sem mágoa, num postal. Convite a que morresse. .. mas por quê? Convite a que matasse. .. mas por quem? (Soldado)
E por vezes as noites duram meses. E por vezes os meses oceanos. E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos. E por vezes fingimos que lembramos. E por vezes lembramos que por vezes ao tomarmos o gosto aos oceanos, só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos. E por vezes sorrimos ou choramos. E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se envolam tantos anos. (Jovem 1)
Fiz uma fotocópia do teu rosto. Da tua última carta. Quando o teu corpo vier para junto das minhas lágrimas farei a última fotografia. Ao teu corpo que nunca repousou junto do meu depois do amor. E, agora, irremediavelmente, só a mágoa disso me fará companhia pelas noites dentro.Deito-me com a fotografia do teu rosto morto, da tua última carta. Amor. Meu noivo que já não serás. Ou que serás para sempre. (Noiva)
«Queria era ser um camponês», dizia o André nas situações tensas. Disparate: o André sabe lá o que é um camponês... Mas quando as chatices apertavam dizia que queria ser um camponês. Os camponeses têm chatices todos os dias e nunca lhes dá para quererem ser intelectuais... acho eu... (Mariana)
Às vezes sinto-me tão mal, tão só, que chego a folhear a lista telefónica e vem-me a tentação de ligar para um daqueles números ao acaso: «Eh, olá, eu sou a Noémia...» Depois nunca tenho coragem... arrumo coisas, disponho coisas. Tenho passado a minha vida, pensando bem, a organizar coisinhas, a arrumar coisinhas, a tirar coisinhas de um lado para pôr noutro... e as coisinhas só têm a importância que eu lhes dou. (Noémia)
Imunda cabra! Tens de reconhecer que além de cabra és incongruente e volúvel... Em África passaste o tempo no meu encalço... Tantas vezes eu te pressenti, ao perto, como agora... dependurada num embondeiro, agachada atrás dum arbusto, enrodilhada na areia da picada... Eu estava disponível, à tua mercê, tanto como hoje, e tu deixaste-me ficar... Estavas só a observar... Fazias-te rogada... E agora, aqui me espreitas... (Octávio)
As pessoas falam, falam, por que é que as pessoas falam tanto? E uma zoada zum-zum, zum-zum, tudo a falajar, a falajar. Provavelmente estão convencidas de que o que dizem interessa a alguém. Contam histórias, contam casos, exibem-se... Mas nós queremos lá saber... (Jovem 2)